sexta-feira, 18 de maio de 2012

Ainda sobre os cursos de Letras


            Depois que escrevi sobre o papel dos cursos de Letras na última postagem, tive acesso a dois interessantes textos que tratam do mesmo assunto. Um leitor anônimo deste blog – a quem muito agradeço – me indicou um texto do Prof. Marcos Bagno intitulado A catástrofe dos cursos de Letras, publicado em 2008 na revista Caros Amigos, mas que está ainda no seu site.

            O Prof. Marcos Bagno levanta alguns problemas cruciais em sua mensagem. Depois de chamar a atenção para o fato de que os alunos de Letras são egressos de camadas  menos privilegiadas e menos escolarizadas da população, o autor afirma que esses alunos muitas vezes não sabem sequer escrever adequada e corretamente quando entram para o curso superior . Os conhecimentos linguísticos que demonstram são baixíssimos. No entanto, os cursos de Letras, principalmente as faculdades de Letras federais, fazem vistas grossas a esses problemas e fingem que os alunos são “ótimos leitores e redatores”. Em consequência disso, despejam sobre eles, logo no início do curso, teorias sofisticadas recém-importadas da Europa e dos Estados Unidos. Há poucos dias, um aluno me disse que os professores “fazem de conta” que todos entram para a faculdade sabendo gramática e que deveriam saber análise sintática. Ó! Ledo engano! Que aluno hoje sabe gramática, se a maior parte dos professores de português do ensino básico também não sabe?

            Os cursos de Letras deveriam ter pelo menos dois anos – como sugere o Prof. Marcos Bagno – de disciplinas intensivas de leitura e produção de textos (e eu acrescentaria o estudo da gramática tradicional, pois o professor de português, esse sim, precisa conhecer a estrutura da língua).

            O outro texto é do Prof. Luciano Mendes de Faria Filho, intitulado Formação de professores, publicado no jornal Estado de Minas, de 24/04/12.

            O artigo trata da formação de professores de um modo geral e não, de professores de português. O articulista refere-se primeiramente a uma crítica que tem sido feita às universidades pelo fato de elas darem mais importância aos cursos de pós-graduação do que aos de graduação. Essa atitude parece repetir uma “tendência tendenciosa” do governo federal em proteger e valorizar os cursos mais “elevados” – pós-graduação e graduação – em detrimento da formação básica, de fundamental importância para o ingresso do país no grupo seleto dos países desenvolvidos.

            Um aspecto interessante do artigo diz respeito ao fato de que uma mudança de atitude com relação a esse problema tem sido atribuída a uma vontade individual do professor, quando, na verdade, deveria ser tratada como um problema estrutural da universidade. Falta, porém, aos colegiados das escolas de licenciatura, bem como às autoridades universitárias e educacionais de um modo geral, vontade política para mudar esse status quo.

            Outro problema levantado pelo autor está relacionado com o papel do professsor e do pesquisador. “A formação de professores requer profissionais de competência e sensibilidades muito distintas dos pesquisadores.” Acho incrível como as nossas autoridades educacionais não enxergam esse problema. Na área de Letras, chega a ser ridícula a posição de certos linguistas, o que vale dizer, de certos pesquisadores com relação ao ensino de português. Os pesquisadores-linguistas devem se preocupar com a língua natural, ao passo que o professor de português deve se preocupar primordialmente com a língua padrão. Mas esse é assunto para as próximas postagens.

            Termino com estas palavras do Prof. Luciano Mendes de Faria Filho: “...é difícil servir a dois senhores, a pesquisa acadêmica de ponta e a formação de professores”. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Para que servem os cursos de Letras?


            “A formação do professor de educação básica é a base da proposta pedagógica da Faculdade Letras (da UFMG) e sempre constituiu, desde a sua fundação, a sua vocação principal.” Certo? Errado.

            Apesar de a citação ter sido extraída de seu Projeto Pedagógico, a Faculdade de Letras da UFMG – bem como inúmeros cursos de Letras espalhados por este país – não se preocupa com o ensino básico (fundamental e médio). A missão principal desses cursos deveria ser a de formar professores. Dos mais de mil alunos que procuram a nossa Faculdade em cada período letivo, setenta por cento, aproximadamente, optam pelo diploma de licenciatura em português, ou seja, desejam ser professores do nosso idioma. No entanto, esses alunos não são preparados adequadamente para o exercício do magistério.

            Um simples exame das disciplinas e das ementas que são lecionadas na Fale/UFMG nos dá a ideia da dimensão do problema. Os professores se preocupam muito mais com as últimas teorias linguísticas que são geradas na Europa e nos Estados Unidos do que com a formação realística dos alunos. Nossos alunos, de um modo geral, são fracos e muitos escolhem o curso de Letras, porque a exigência do número de pontos no vestibular é menor. É claro que há exceções: alguns alunos abraçam o curso por vocação e são verdadeiros geniozinhos. Pode-se mesmo dizer que o discente entra para a Faculdade sem saber nada de português, mas sai com a cabeça mais confusa ainda: afinal, ela não ensina (a contento) a gramática tradicional, não leva o aluno a dominar a língua padrão e despeja na cabeça do aluno teorias linguísticas das quais ele vai se esquecer rapidamente e que não trarão qualquer benefício para o ensino do idioma pátrio. O descontentamento dos alunos é enorme: muitos procuram na grade curricular disciplinas que sejam voltadas para o ensino de português mas não encontram.

            Não causa estranheza, portanto, o estado lastimável em que se encontra o ensino de português no país. É voz corrente que ele vai mal e isso se deve, em grande parte, à omissão dos cursos de Letras. Parece até que certos docentes chegam a pensar: “Trata-se de um assunto muito elementar, inadequado para a formação acadêmica que tive na Europa e nos Estados Unidos”. E o pior costuma acontecer: professores despejam nas cabeças dos alunos de Letras teorias linguísticas e discursivistas que não têm qualquer proveito efetivo para o ensino de português.

            As faculdades existem para formar profissionais em suas respectivas áreas. A de Medicina forma médicos, a de Engenharia forma engenheiros, a de Direito forma advogados, e assim por diante. A Faculdade de Letras não foi feita para formar professores? Parece que não.

            Um sintoma grave dessa indiferença das faculdades de Letras (principalmente as federais) com o ensino pôde ser visto recentemente com o último Acordo Ortográfico. O assunto passou a quilômetros de distância dos doutores subequatorianos da Sorbonne e Massachusetts. Tudo bem que essa questão não seja de interesse para a Linguística, mas é muito importante para o ensino de português. Mais uma vez, os cursos de Letras ficaram à margem da discussão, tanto antes como depois da publicação do Acordo.

            Sob certos aspectos, a ABL – a tão combatida Academia Brasileira de Letras – presta mais serviços ao ensino do que as faculdades de Letras. Afinal, não é de sua iniciativa a publicação do VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), tão últil para os professores do vernáculo?

            Enfim, quem é que presta mais serviços à comunidade, com relação ao emprego do português padrão? São os cursos superiores de Letras ou os chamados “professores midiáticos”, como Pasquale Cipro Neto, Dad Squarisi, Sérgio Nogueira e outros?

            Para finalizar, é preciso reconhecer que os cursos de Letras precisam continuar com as suas pesquisas de alto nível, fazer as suas experimentações, incentivar a participação de professores em cursos do exterior, introduzir novas teorias nas diversas áreas do conhecimento, etc., etc. Tudo isso deve ser feito nos cursos de pós-graduação da Fale/UFMG. Nos cursos de graduação – citando mais uma vez o Projeto Pedagógico – “a formação de professores constitui um compromisso maior da Faculdade de Letras e uma realidade de mercado para os profissionais de Letras, além de ser uma necessidade estratégica do país no eixo educacional”.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Ainda sobre o Acordo Ortográfico - O caso do trema


            Desde a publicação do Acordo, tenho recebido de alguns amigos saudosistas – como o Hélcio, a Simone, a Vera e a minha atual aluna Nádia de Assis – protestos pela cassação do trema. Brincadeiras à parte, sugiro que pesemos os prós e os contras, mas desde já afirmo que o posicionamento não é simples. A meu ver, o fiel da balança tende para a extinção dessa notação léxica.

            O primeiro argumento dos que defendem a permanência do trema está relacionado com a imperfeição da ortografia: linguiça e enguiça, frequente e esquente são pronunciados de maneira diferente, embora sejam escritos da mesma maneira. Isso acontece com certa frequência no português e com uma frequencia bem maior em outras línguas. Veja-se, por exemplo,  o caso da sílaba te. Em telefone e dente, as pronúncias são completamente diferentes. No primeiro caso, trata-se de uma consoante línguodental e, no segundo, de uma africada palatal (para usarmos uma classificação simples e tradicional). Há ainda inúmeros casos, que não percebemos direito, pelo fato de estarmos acostumados a eles. Por que pronunciamos de maneiras tão diferentes palavras como próximo, exame, xadrez e oxítona (respectivamente com sons de s, z, ch e cs), todas escritas com x?  E o que dizer de palavras como bênção e pertençam, que se escrevem de maneira diferente, mas se pronunciam com um ditongo nasal na última sílaba. Os exemplos são inúmeros e acho que não vale muito a pena insistir nesse assunto.

            O segundo argumento diz respeito aos alfabetizandos. Segundo alguns professores, o trema facilitaria a leitura de palavras como sequência, quinquenio, arguição e equino (em que se pronuncia o u), como também de palavras em que o u não é pronunciado: quina, aquiescência, quebranto e guirlanda. O argumento faz sentido em parte. Aqueles que dão ou deram aula no curso fundamental sabem como era difícil ensinar o uso do trema. Nos últimos anos ele era raramente usado pelos alunos e também pelos adultos. Chegou mesmo a ser dispensado nos vestibulares. Tratava-se de um caso inequívoco de morte anunciada. O uso do trema podia até ajudar um pouco no princípio, mas logo se tornava um peso morto.

            Há ainda aqueles que defendem o emprego do trema, por entender que, para o estrengeiro, o seu uso facilita a pronúncia das palavras onde ele deveria ser usado. Aqui também utilizo o argumento do parágrafo anterior. Pode até facilitar no início, mas depois ele será rapidamente esquecido. Além disso – os professores de português para estrangeiros que me perdoem – é preciso lembrar que a grafia da nossa língua tem que ser boa para os usuários da língua portuguesa e não, para os estrangeiros. Afinal, pondo de lado as questões políticas, por que houve tantas reformas na ortografia da nossa língua? Por duas razões muito simples, que, na verdade, se resumem em uma só. Para simplificar a escrita e por questões pedagógicas. A meu ver, só isso justifica plenamente a sua simplificação.  

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sobrou até para Guimarães Rosa


Sobrou até para Guimarães Rosa



            Eu já estava me preparando para “falar” especificamente sobre o trema, que foi cassado no último Acordo Ortográfico, quando deparei com uma reportagem – vou dizer de uma vez – estapafúrdia, que saiu hoje no Estado de Minas. Na verdade, não é a reportagem que é estapafúrdia, mas o conteúdo da proposta. Querem proibir a entrada – logo de quem? – de Guimarães Rosa, primeiramente, e também de Carlos Drummond de Andrade, de Mário de Andrade, de Manuel Bandeira, de Fernando Pessoa, de José Saramago e de muitos outros escritores nas salas de aula, porque esses autores não escrevem de acordo com a norma culta.

            Transcrevo o “caput” do artigo 1º do Projeto de Lei n. 1983/2011, de autoria do Deputado Bruno Siqueira (PMDB), que deverá ser votado na Assembleia Legislativa:

            “Fica proibida a adoção e distribuição, na rede de ensino pública e privada do Estado de Minas Gerais, de qualquer livro didático, paradidático ou literário com conteúdo contrário à norma culta da língua portuguesa ou que viole de alguma forma o ensino correto da gramática.”

            Não é a primeira vez que aparecem na mídia propostas, considerações ou comentários absurdos a respeito da língua portuguesa. A última foi a dos “ciganos”, que cheguei a comentar neste blog. Recomento às pessoas de um modo geral e, de um modo especial, aos deputados, que consultem os especialistas no assunto (professores de português), para que não cometam disparates, como este que reproduzo aqui.

            Passo ao cerne da questão, sem me ater à segunda parte da proposta do Deputado, senão fugiríamos demais ao nosso assunto.

            Em primeiro lugar, os nossos alunos, de todos níveis, precisam entrar em contato com a literatura. Afinal, as obras literárias são janelas que se abrem para o Mundo. Ler uma obra literária, ou apreciar uma obra de arte, é ultrapassar os limites desse reles mundinho em que vivemos. A língua falada do dia a dia - e a mais impura das matérias, como o lixo, por exemplo - podem forjar obras-primas de inigualável beleza.

            Além disso, arte é inovação, descoberta, ruptura. “Não se proponha a escrever, quem não se dispõe a inovar”, já dizia Ortega Y Gasset. Os grandes artistas da humanidade e, mesmo os grandes cientistas, são aqueles que duvidaram, que ousaram, que romperam com o passado: Beethoven, Monet, Galileu, Darwin, Freud, etc.

            Privar os alunos de entrar em contato com esses gênios é crime que merece cadeira elétrica.

            Em segundo lugar, compete aos professores de português mostrar aos alunos a diferença entre língua padrão e língua não padrão. A primeira está consubstanciada em jornais e revistas de grande circulação, nos livros técnicos e científicos, na linguagem burocrática e administrativa, nas leis, nos códigos, nos regulamentos, enfim, em todos os textos em que se requer um tratamento neutro à matéria apresentada. A língua não padrão  - e que também deve ser objeto de apreciação nas escolas – aparece na literatura contemporânea, nas letras de música, nas propagandas, nas peças de teatro, etc. Se o professor agir com clareza, com objetivos específicos, até mesmo com sabedoria, será perfeitamente possível separar o português padrão do português não padrão. Em meu livro Gramática: nunca mais (WMFMartins Fontes, 2007), chego a sugerir que as aulas de língua portuguesa, já no curso fundamental, sejam divididas em português padrão e prática literária. Mas isso é assunto para uma outra postagem.

            Enfim, não subestimemos os nossos alunos. Muitos deles entendem tudo de computação, de campeonato brasileiro, de Fórmula I e de MMA. E eles sabem separar com clareza a fantasia que devem usar para a balada do sábado à noite da roupinha que vestem para ver o time do coração. Isso tem tudo a ver com língua padrão e língua literária.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

De acordo com o Acordo

            Fui alertado por minha competente e simpática ex-aluna Simone Garófalo de que há um movimento capitaneado pelos professores Pasquale Cipro Neto e Ernani Pimentel no sentido de pedir ao Senado a suspensão do Acordo Ortográfico firmado recentemente pelos países de língua portuguesa. Em que pese a minha admiração pelo Prof. Pasquale, gostaria de dizer que a suspensão do Acordo seria um retrocesso, ou mesmo um desatino, com relação a toda essa questão. Seria atear lenha a uma fogueira que já está se apagando.

            Além disso, a meu ver, o Acordo apresenta mais benefícios do que malefícios. Vejamos os benefícios.

            Retomo aqui apenas duas reformas realizadas no século passado, que foram muito positivas para a fixação da ortografia nacional: a de 1943 e a de 1971.

            Antes de 1943, a grafia das palavras era extremamente confusa. Vivia-se ainda uma época de escrita pseudoetimológica, em que havia uma forte influência da época clássica e renascentista. As palavras eram escritas à maneira latina, com o emprego de rh (como em rhomboidal), de th (como em theatro), de ph (como em phosphoro e pharmacia) e de ch (com o som de k, como em chronica e chrisma). Pode-se mesmo dizer que havia uma barafunda generalizada em termos de ortografia, com exageros e equívocos que contribuíam para uma verdadeira algaravia nacional, como nos exemplos citados, além de outros como: typographia, septe, docto, dapno, infermo, intrar, egreja, lyrio, cyrio, comptar, sancto, etc.

            Em 1904, o foneticista português Gonçalves Viana tinha escrito um livro muito importante, intitulado Ortografia Nacional, que serviu de base para as reformas que se seguiram. Mas foi só em 1943 que o Brasil fixou a atual ortografia, com a publicação do Vocabulário Ortográfico pela Academia Brasileira de Letras. É a norma de 43 que vigora até hoje e que tornou a escrita do português relativamente fácil, se a compararmos com a francesa ou inglesa, por exemplo. Em termos de ortografia, a portuguesa é uma das mais accessíveis e funcionais que existem, por causa de sua simplicidade e de sua fidelidade à fonética, embora, é claro, conserve alguns laivos de etimologismo.

            Em 1971, uma pequena e arguta reforma livrou a escrita de um fardo penoso aos usuários da língua e particularmente aos professores da língua pátria. Antes de 71, era difícil saber – e ensinar aos alunos – que agôsto, o nome do mês, levava acento para diferenciar de agosto (?), que dêle, nêle, aquêle, mêdo, estrêla, fêz, côr, fôsse, fôr e outros milhares de palavras levavam acento para diferenciar de dele, nele, aquele, medo, estrela, cor, fosse, for, etc. (todas elas com vogal tônica aberta).

            Agora imagine, meu caro leitor, como seria difícil a escrita – principalmente para o ensino de português – se não tivéssemos passado pelas reformas de 43 e 71!

            O último Acordo, de 1990, embora tenha sido tímido, pois atingiu poucas palavras da língua portuguesa (em termos de frequência), contribuiu um pouco mais para que a escrita se torne cada vez mais fácil e accessível aos usuários e aprendizes da escrita. As reformas são importantes sob o ponto de vista pedagógico, pois elas estão se encaminhando para a simplificação da ortografia. Sendo assim, considerando o recente Acordo, podem-se considerar como fatores positivos a extinção do trema e a abolição do acento em palavras como assembleia, heroico, para (verbo parar), polo, pera, coa, veem, voo, argui, etc. É claro que o Acordo tem também pontos negativos: o calcanhar de aquiles é o emprego do hífen, que continua confuso e incompreensível, como era antigamente.

            A escrita de uma língua nunca é completamente fiel à sua execução oral. Mas para o bem da simplicidade e, ipso facto, do ensino do idioma nacional, é necessário que reformas parciais sejam feitas de tempos em tempos. Caso contrário, a escrita ficará esclerosada, como no caso do inglês e do francês. Reformas muito bruscas também são desaconselháveis, porque provocam confusão entre os usuários da língua. Sugiro que a próxima reforma – que espero seja no mínimo daqui a cinquenta anos – “conserte” a questão do fonema /s/, por exemplo. Como se sabe, há pelo menos nove maneiras diferentes de escrever o “som” representado pelos dois esses da palavra osso: seda, cedo, aço, osso, descer, excêntrico, extra, exsudar e feliz. Coitados dos nossos alunos! 

            As mais importantes e difundidas línguas ocidentais têm uma escrita única no mundo, como o inglês, o francês, o espanhol e o alemão. Faltava ao português, a sexta língua mais falada na Terra, esse status de regularidade.

            Deixo aqui registradas estas sábias palavras do Prof. Ismael de Lima Coutinho a respeito do assunto em questão: “ Faz-se mister, portanto, democratizar a ortografia. Já vai longe o tempo em que ela era considerada alguma coisa misteriosa, cujos segredos só competiam aos sacerdotes e iniciados.” 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Por uma escola atraente e divertida

             Os conteúdos ensinados em nossas escolas são, em sua grande maioria, ultrapassados, cansativos, inúteis, ininteligíveis e perfeitamente dispensáveis. Esse é o caso da gramática. Neste blog, pretendemos discutir muito essa questão. De início, é preciso colocar nas cabeças das pessoas que as crianças só gostarão da escola se ela for “ atraente e divertida”. É o que pretendemos demonstrar neste blog. Começamos com a transcrição de um trecho da introdução do livro Gramática nunca mais 2. Voltaremos a tratar do assunto com mais profundidade.

             “O propósito desta obra está também relacionado com outro problema que aflige os educadores e os cidadãos, de um modo geral. Referimo-nos ao estado lastimável em que se encontra o nosso sistema educacional. Vamos deixar de lado os aspectos físicos e funcionais da questão (precariedade das escolas, falta de material didático, baixa remuneração dos professores, etc.) Na vida só aprendemos algo ou por interesse ou por prazer. Aqui estamos nos referindo a aprender, mas aprender de fato – do latim, aprehendere, ‘agarrar, segurar, apoderar-se, apreender’ – , o que não tem nada a ver com “decorar para ganhar uma boa nota”, como fazem muitos alunos. Ora, diversas disciplinas que são ministradas nas escolas não apresentam o menor interesse ou prazer para os alunos. Isso se dá com uma parte substancial do ensino de português, principalmente quando essa disciplina é dada com base na gramática. De fato, que prazer ou interesse (ou utilidade) há em estabelecer a distinção entre uma oração subordinada substantiva completiva nominal e uma oração subordinada substantiva objetiva indireta? Que prazer ou interesse há em estabelecer a diferença entre um pronome pessoal reto e um oblíquo? Alguns dirão que tal conhecimento contribui para o aprendizado da língua padrão. Isso nos faz lembrar o caso de uma velhinha que, mesmo não tendo passado pelos bancos escolares, dizia: “Você sabe onde está a Mariinha? Você pode procurá-la para mim?” Evidentemente que a velhinha não sabia o que é pronome reto ou oblíquo, regência verbal, verbo transitivo direto e objeto direto.”

terça-feira, 27 de março de 2012

Pontuar é preciso II (Respostas)

PONTUAR É PRECISO II (RESPOSTAS)


            Um dos maiores absurdos do ensino de português é tentar ensinar o aluno a usar os sinais de pontuação por meio da análise sintática. Por que o indivíduo chega à idade adulta “com medo” de pontuar?
São poucos os alunos que conseguem separar o sujeito do predicado. O que se dirá de professores que “ensinam” que não se deve separar por meio de vírgula o verbo transitivo direto do objeto direto, o núcleo do objeto indireto de seu adjunto adnominal, o termo regente do complemento nominal do termo regido e assim por diante? E o que se dirá de professores que afirmam que, por outro lado, deve-se colocar vírgula entre a oração principal e a oração subordinada, principalmente se esta estiver deslocada, que se deve colocar vírgula entre a oração principal e a oração subordinada adjetiva explicativa (mas não, se a oração for adjetiva restritiva) e assim por diante? Qual é o indivíduo, qual é o jornalista, qual é o escritor que se lembra dessas regras bolorentas ao redigir o seu texto?
            Saber pontuar é, antes de tudo, ter muito contato com o texto. Mas isso não basta. É necessário que o professor de português faça exercícios específicos sobre pausas na leitura. O aluno precisa ter o hábito de pontuar. Assim como é possível fazer leituras em voz alta em sala de aula, obedecendo às pausas, é possível também fazer com que o aluno releia o seu texto em voz alta, sempre tomando muito cuidado com as pausas, como veremos a seguir.

VÍRGULA

I – Observe o modelo:                                                 

Fernanda [   ,    ] Waldênia e Reinaldo são alunos desta turma.     

Leia a frase em voz alta, dando ênfase à vírgula. Em outras palavras, entre Fernanda e Waldênia existe uma pequena pausa, que corresponde a uma vírgula.
Proceda da mesma forma com as frases que se seguem, ou seja, leia-as em voz alta e, quando houver uma pausa, coloque uma vírgula entre colchetes.

1 – Nélia[,] Bárbara e Aparecida destacam-se como boas alunas.
2 – Os professores[,] os alunos e a comunidade deveriam se interessar pelo projeto.
3 – Os livros infantis[,] as revistas em quadrinhos e os almanaques podem ficar na estante da esquerda.

                  Þ Observe: quando se usa e, não há necessidade de colocar vírgula.

4 – Os estudantes[,] os professores os funcionários e os pais se mobilizaram contra a nova medida do governo.
5 – Todas as ruas[,] avenidas[,] praças e logradouros públicos deverão ser cadastrados.
6 – Os alunos provenientes de outras escolas[,] os professores recém-contratados e os funcionários não-concursados     irão se reunir hoje à tarde.
                                         Ý
                                        Aqui se pode fazer uma pequena pausa, é verdade, mas não se coloca vírgula, porque irão se reunir se refere ao que foi dito antes, ou seja, está ligado ao que já foi dito.
                            Em outras palavras:
                            Do mesmo modo como não faz sentido colocar vírgula na frase abaixo,

                            Os professores  ,      irão se reunir hoje,

        também não faz sentido colocar vírgula na frase 6 acima, no lugar indicado pela seta.

7 – Os livros de história[,] os cadernos de matemática e as pastas de desenho estão reunidos no armário.
8 – As crianças[,] os idosos[,] os deficientes físicos e as gestantes não precisam entrar na fila.
9 – Os atletas compraram bolas[,] camisas e raquetes.
10 – Este autor escreve poemas[,] contos e peças teatrais.
11 – O Prefeito de Belo Horizonte quis se referir aos aposentados[,] aos funcionários efetivos e aos concursados.
12 – Meus vizinhos gostam de computador[,] de televisão[,] de videoquê e de sanduíche.
13 – Os velocistas correm contra o vento[,] contra os competidores e contra o poder econômico.
14 – O artigo fez referência aos brancos[,] aos índios e aos negros.
15 – A sentença proferida pelo Juiz foi favorável aos proprietários[,] aos inquilinos[,] aos síndicos e aos visitantes.
16 – Trata-se de uma casa grande[,] moderna[,] ventilada e segura.
17 – Os contribuintes reincidentes[,] faltosos e omissos serão chamados na segunda etapa.
18 – Devemos agir com moderação[,] justiça e grandeza de caráter.
19 – Durante a segunda quinzena de junho[,] haverá muitas festas juninas em meu bairro.
20 – Com base no Código Nacional de Trânsito[,] os motoristas foram autuados em flagrante.
21 – Depois do prazo combinado[,] a polícia arrombou a portaria.
22 – Nas cidades ribeirinhas[,] o único alimento que não falta é o peixe.
23 – Com muito cuidado[,] o turista colocou no lugar a peça desaparecida.

II – Nos exemplos que se seguem, você não precisa mais indicar as pausas com os colchetes, mas continue a ler as frases em voz alta e a colocar vírgula nas pausas:

1 – Nas ilhas pertencentes ao Peru, os pesquisadores americanos encontraram exemplares de um lagarto pouco conhecido.
2 – A banda conseguiu, durante os últimos trinta minutos do show, um fato inédito: o silêncio total dos presentes.
3 – Dom Pedro II, Imperador do Brasil, foi um monarca sábio.
4 – Entre os livros de Machado de Assis, famoso escritor brasileiro, encontram-se Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro.
5 – Nuvens escuras apareceram no céu, sinal de tempestade iminente.
6– Mensageira da ideia, a palavra é a mais bela expressão da alma humana.
7 – A verdade, meus alunos, é que a mentira gera desconfiança.
8 – Meu Deus, por que me abandonastes?
9 – Podemos afirmar, senhores, que o nosso esforço foi recompensado.
10 – Os dias passam, as estações se sucedem.
11 – A palavra vale prata, o silêncio vale ouro.
12 – O braço constrói, o espírito eterniza.
13 – Os meninos pediram, choraram, imploraram até conseguirem o que queriam.
14 – Mudamos de paixões, mas não vivemos sem elas.
15 – Elas trabalham de sol a sol, porém recebem salários irrisórios.
16 – O mar é generoso, porém às vezes se torna cruel.
17 – As crianças são assim mesmo: ora participam de tudo, ora se retiram para o seu mundo.
18 – Penso, logo existo.
19 – Os professores deste colégio são sábios, por conseguinte merecem respeito.
20 – Deus, que é nosso pai, nos salvará.
21 – Ele tem amor às plantas, que cultiva com carinho.
22 – A mãe, que era surda, estava na sala com ela.
23 – Como as máquinas estão ocupadas, faremos o trabalho à mão.
24 – O professor ficou satisfeito, embora os resultados não fossem os esperados.
25 – Só poderíamos falar em desenvolvimento, se as taxas estivessem mais elevadas.
26 – Convidaremos os vizinhos, desde que todos venham.
27 – A empresa fará suas compras no país, a fim de prestigiar a indústria nacional.
28 – Quanto mais as cidades crescem, mais problemas vão surgindo.
29– Enquanto a formiga trabalhava, a cigarra cantava.
30 – Embora houvesse muita gente no estádio, nada de grave aconteceu.
31 – Não me impedirão de vir aqui hoje, ainda que tentem.
32 – Se tudo corresse bem, eles chegariam antes do anoitecer.
33 – À medida que o governo perdia força, a oposição aumentava sua influência.
34 – Construíram barreiras de pedra na entrada da cidade, para que a torrente de lama não invadisse as ruas.
35 – Apareceram estrelas no céu, assim que o sol se pôs.