quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Ainda a expressão oral


            Há uma questão, relacionada com a expressão oral, que costumo discutir muito com meus alunos do Curso de Letras. Trata-se do seguinte.

            O aluno – digamos, da 6ª ou 7ª série – levanta o braço e pergunta: – Professor, o senhor vai passear com nós amanhã no Jardim Zoológico? A sala fica em silêncio e todos se voltam para o mestre, esperando uma resposta. Independentemente da resposta que será dada, a questão que coloco aqui é a seguinte: deve o professor “corrigir o erro de português” proferido pelo aluno? Deve o professor corrigir para “...o senhor vai passear conosco amanhã...”?

            Quando coloco em discussão uma questão como essa, as opiniões divergem bastante.

Há aqueles que defendem que a correção deve ser imediata, sem rodeios, pois, afinal de contas, é essa a missão do professor. Se o professor de português não fizer isso de maneira clara, adequada, contínua e constante, quem o fará? Os professores de outras disciplinas, que muitas vezes o fazem, mas sabendo que essa é uma tarefa que deveria ser de responsabilidade do professor de português? Além disso, é tarefa da escola ensinar não só o português padrão escrito, mas também o português culto falado, que deverá ser usado em diversas circunstâncias, como vimos na postagem anterior. Não fazer essa correção é dificultar a vida do aluno e do futuro cidadão, é impedi-lo de entrar no mercado de trabalho, é privá-lo de uma ferramenta importante, que é o domínio do português culto. É, enfim, cometer um crime pedagógico, com repercussões funestas na vida de uma pessoa. 

Por outro lado, há aqueles que consideram a “correção” uma violência cometida contra o aluno, pois isso poderia ferir as susceptibilidades do jovem, podendo mesmo marcá-lo para o resto da vida. Trata-se de um psicologismo barato, que desconhece que o papel primordial da escola é inserir o indivíduo na sociedade. Há ainda aqueles linguistas mal-informados, que afirmam que corrigir o aluno é deformar a personalidade linguística do aluno, é tentar impor ao jovem uma linguagem artificial, elitizada, que irá cercear a liberdade do educando. É preciso deixar claro que, ao aprender a língua padrão na escola, o jovem vai continuar usando com seu amigos, colegas e parentes o tipo de linguagem que melhor lhe convier. É claro que haverá um alerta do professor para o aluno: – Quando você for escrever um requerimento, uma procuração ou um relatório, ou quando você pedir a palavra em uma reunião da sua empresa, use o português padrão ou culto.

O leitor já deve ter notado que defendo a primeira posição e eu poderia enumerar várias razões para isso. A correção deve ser feita na hora, mas sempre... sempre, com muita educação e jeitinho por parte do professor. Se o aluno afirma que 5 X 7 é 30 ou que a capital da Alemanha é Madri ou que a monarquia brasileira foi extinta no século XX, não devem os professores de matemática, geografia e história corrigir os alunos no ato? Por que o professor de português não pode corrigir o aluno? Garanto que o aluno ficará aternamente grato, se a correção for feita, como disse, com educação, carinho e amor.

Ao aluno mais renitente, que não aceita que a correção seja feita pelo professor de português, costumo lançar mão de outro argumento mais poderoso. Pergunto ao futuro  professor de português: – Se o seu filho lhe perguntar: Pai, você vai com nós no zoológico? – você corrigiria?   

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A expressão oral no ensino de português


Fiquei devendo algumas considerações a respeito do ensino da expressão oral no ensino de português.

É evidente que o professor deve se preocupar com essa questão. Afinal, a expressão oral adequada vai ser importante para a vida e para a inserção do indivíduo no mercado de trabalho. Muitas vezes essa inserção começa com uma entrevista oral, em que o candidato já deve mostrar um tipo de linguagem adequada àquela situação. Uma vez inserido no mercado de trabalho, a habilidade em usar a linguagem com um fim específico pode ser fundamental para o sucesso do cidadão em sua atividade profissional. Veja-se, por exemplo, o caso de um advogado, de um jornalista, de um professor, de um político, etc., que utilizam constantemente a expressão oral como ferramenta de trabalho. Nunca é demais repetir que as pessoas que se expressam bem têm mais chance de progredir em sua atividade profissional.

Cabe ao professor de português uma parcela importante no desenvolvimento da expressão oral do aluno. É ali, na sala de aula, que, muitas vezes, começa a vocação do aluno para dirigir uma simples reunião, falar em público, liderar um movimento social ou enfrentar grandes plateias.

O professor deve sempre franquear a palavra ao aluno. Mas isso deve ser feito de maneira organizada, institucionalizada, durante a interpretação de textos, por exemplo. Em sala de aula, o aluno está se expondo perante o professor e os colegas, em um momento em que todos estão em silêncio, observando suas feições, seus gestos e, principalmente, suas palavras. É um momento de extrema importância para a educação integral do aluno e para o desenvolvimento de sua habilidade em falar para uma plateia. Mas há outros momentos em que a língua falada deve ser monitorada na escola: nas reuniões dos grêmios literários e artísticos, nas apresentações no auditório da escola, nas datas festivas, etc.

Não existem exercícios específicos para o desenvolvimento das habilidades orais do aluno. Isso se faz no decorrer dos doze anos em que o aluno frequenta o ciclo básico. É preciso lembrar também que o exemplo dos professores (não só de português) é muito importante.

Desenvolvimento da expressão oral é isso. Não é ficar estudando ou repassando aos alunos textos em língua falada, algo que eles já conhecem muito bem e praticam à exaustão no dia a dia. Não é objetivo da escola fundamental estudar a língua falada. Qual seria o objetivo desse estudo? Isso é algo que deve ser estudo nos cursos de Letras, com finalidades científicas. Mas isso é outra história.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sobre a Gramática (anti)pedagógica de Marcos Bagno


            Chegou recentemente às livrarias a Gramática pedagógica do português brasileiro, do Prof. Marcos Bagno (Parábola, 2011). Como se trata de um volume bastante alentado, com mais de mil páginas, torna-se difícil fazer, por ora, uma crítica minuciosa do trabalho. Além disso, a postura do autor é, de uma maneira geral, muito inovadora, o que torna mais difícil ainda uma avaliação justa, científica e despreconceituosa de toda a obra.

            Há, porém, dois aspectos da gramática que já podem ser analisados, por se tratar de posturas teóricas, relacionadas com todo o livro, e que, por um lado, sustentam positiva- mente a obra, mas, por outro, a inviabilizam, pelos motivos que exponho a seguir.

            Em primeiro lugar, o autor se declara contrário ao ensino da gramática na escola básica (fundamental e média). De fato, não faz sentido que um aluno de 12-13 anos estude a diferença entre um complemento nominal e um adjunto adnominal, entre um sujeito indeterminado e um sujeito inexistente ou entre uma oração subordinada substantiva predicativa e uma... Bem, não preciso ir adiante nessas considerações, que têm como objetivo a extirpação de todo esse entulho gramatical das salas de aula e dos compêndios didáticos. São vários os argumentos que conduzem a essa conclusão e que procurei demonstrar no meu livro Gramática: nunca mais – o ensino da língua padrão sem o estudo da gramática (WMFMartins Fontes, 2007). A principal razão, porém, resume-se no seguinte: o conhecimento teórico da gramática não leva o aluno a ser proficiente em português. Pelo contrário, o estudo da gramática afasta o aluno dos bancos escolares e lhe tira o prazer de estudar o idioma nacional.

            Quanto a esse aspecto, Marcos Bagno pergunta, ao mesmo tempo em que afirma:    “Ou será que alguém acredita que é possível levar uma pessoa a dominar plenamente as habilidades de leitura e escrita obrigando ela (sic) a decorar a suposta diferença entre adjunto adnominal e complemento nominal?” (p. 22) Mais adiante, o professor continua: “Não se deve ensinar gramática na escola, mas quem ensina na escola deve conhecer muitíssimo bem a gramática!” (p. 29)

            Até aqui, tudo bem, concordo plenamente com a postura do autor. O grande problema dessa obra reside, porém, no tipo de linguagem que é apresentado como modelo da língua escrita padrão.           

A gramática tradicional apresenta duas faces, que muitas pessoas – mesmo os professores de português calejados – não conseguem discernir. De um lado, existe nos compêndios normativos uma teoria gramatical arcaica, ultrapassada, incoerente e autoritária. Via de regra, essa teoria não justifica seus pontos de vista. São dez as classes de palavras, pronto e acabou! Em vou ao cinema, o verbo é intransitivo e não se discute, apesar de todos os argumentos ao contrário. Leia-se, a propósito o livro do Prof. Perini Por uma nova gramática do português. Repetindo, para ficar bem claro: essa pseudo-teoria linguistica, como já expus longamente em meus livros e como defende também o Prof. Marcos Bagno, é perfeitamente dispensável do ensino do português.

            Outra coisa diferente é o modelo de linguagem apresentado pelas gramáticas tradicionais. Não estou discutindo as suas fontes, as suas abonações, enfim, o corpus ou os corpora em que se baseiam. Isso é outro problema. O certo é que o modelo de linguagem preconizado pelas gramáticas tradicionais é seguido, quase que integralmente, pelos suportes ou veículos que se dispõem a usar a língua padrão escrita. Não estou me referindo aqui à língua literária, à língua da publicidade ou às letras de música, por exemplo, já que se trata de gêneros textuais que não utilizam obrigatoriamente a língua padrão. Refiro-me ao português padrão escrito, aquele que é encontrado nas reportagens dos jornais e revistas de grande circulação, nos livros e artigos técnico-científicos, nas publicações dos tribunais, das assembleias e dos órgãos públicos, por exemplo. De fato, esse português padrão é bem uniforme no país inteiro. Dificilmente podemos distinguir um livro, um artigo científico ou mesmo um jornal publicado em Porto Alegre, Rio de Janeiro ou Recife. Há, inclusive, pesquisas sobre o assunto. Cito aqui as teses de doutorado da Prof.ª Rosângela Borges Lima (Estudo da norma escrita brasileira presente em textos jornalísticos e técnico-científicos – 2003) e da Prof.ª Rosilene Alessandra Marques (O padrão culto escrito em uso no Brasil em gêneros textuais do domínio jornalístico – 2010), ambas defendidas na Faculdade de Letras da UFMG.

            Pois bem. É esse o tipo de linguagem que é ensinado nas escolas e que serve de modelo para que os alunos adquiram o português padrão, aquele mesmo que vai ser utilizado pelos futuros advogados, jornalistas, engenheiros, arquitetos, historiadores, etc., em seus trabalhos e em sua comunicação escrita formal.

            Não é essa, porém, a postura de Marcos Bagno. Em seu livro, o professor defende a posição de que o modelo de língua proposto no ensino de português seja o da língua falada urbana culta. Para ele, não mais o modelo de linguagem que é ensinado pelas gramáticas tradicionais; não mais o tipo de linguagem que é usado nos jornais e revistas de grande circulação, nos livros técnicos e científicos, nas publicações dos tribunais, dos órgãos públicos, etc. Numa atitude totalmente inovadora e solitária nos meios acadêmicos brasileiros, o autor defende a posição de que a língua falada – pasmem, senhoras e  senhores, língua falada! –, usada pelas pessoas escolarizadas no dia a dia, nos seus momentos de desconcentração, deve ser o modelo do português padrão. É preciso considerar, porém, como todos nós sabemos, que existem diferenças marcantes entre a língua escrita e a falada, ou, mais especificamente, entre a língua usada em um livro de direito, por exemplo, e a língua falada espontânea de um advogado, de um jornalista ou de um professor de geografia. Mesmo a norma falada pelas pessoas escolarizadas difere substancialmente da norma escrita padrão. Isso é uma unanimidade entre os autores brasileiros e do mundo inteiro.

            Diz o autor, na p. 33 de seu livro: “ A norma-padrão tradicional acaba perdendo espaço para a norma real, habitual, normal, pelos usos feitos pelos falantes (grifo meu) em suas atividades linguísticas cotidianas. É dessa norma real, habitual, normal, que vamos tratar nesse (sic) livro. Mais adiante, na p. 77, o professor volta a afirmar: “Por isso, se é para ensinar alguma norma, que seja, pelo menos, a norma real, o conjunto de variedades realmente empregadas pelos falantes (grifo meu) urbanos mais letrados”.

Cito a seguir algumas passagens do texto do próprio autor, extraídas da Gramática pedagógica, em que foi seguido o modelo da norma culta falada:

           

“...levar uma pessoa a dominar plenamente as habilidades de leitura e escrita obrigando ela a decorar...” (p. 22)

“Boa parte disso tudo a gente aprende em casa... na nossa comunidade, nos grupos que fazemos parte, nas redes sociais que nos movimentamos...” (p. 28)

            Me refiro aos dois títulos abaixo...” (p. 25)

            “...já passou da hora de se considerar igualmente válido e igualmente correto dizer ‘vou ao cinema’, ‘vou no cinema’ ou ‘vou para o cinema’.” (p. 620)

            “Não existe vida social sem que se estabeleça normas para a conduta...” (p. 32)

            “No corpus do NURC-Brasil, existe 28 usos de tinha como apresentacional...” (p. 626)

 

            Seguem-se exemplos de citações extraídas do projeto NURC (uma ampla pesquisa, de cunho científico, que estuda a Norma Urbana Culta falada do português do Brasil). Segundo o autor da Gramática pedagógica, trata-se de modelos de linguagem que devem ser seguidos pelos alunos e pelas pessoas de um modo geral, quando forem usar a língua escrita formal em seus trabalhos escolares, relatórios, monografias, artigos técnicos e científicos, procurações, reportagens, ofícios, petições, sentenças judiciais, etc.:

 

            “...prefiro ir a teatro do que a cinema...quando o filme não é bom né?...” (p. 533)

            “...meu marido estava em São Paulo semana passada e obriguei ele a ir ao shopping...” (p. 597)

            “A capital cresceu e com o desenvolvimento veio também os problemas da cidade grande...” (p. 634)    

            “...ela também está não sei a impressão que eu tenho pelo menos...ela também está meia...desiludida...” (p. 675)

            “Tudo aquilo foi me deixando mais excitado ainda...Mas, ao mesmo tempo, uma dó danada daquela menina perdida lá na Europa...” (p. 692)

            “Aí pode ser pouquinha, pouquíssima coisa, mas que dê pra mim mastigar, porque se eu...” (p. 731)

            “...televisão e tudo quando aparece eu tenho a impressão que o trigo deve ser muito bonito.” (p. 896)

            “...tem essa amiga também que agora o...o marido foi de muda para Passo Fundo.” (p. 903)

            “...uma moça bem vestida me perguntou aonde ficava a rua.” (p. 929)

 

            A propósito: não faz sentido, em um trabalho acadêmico, a apresentação de alguns exemplos pinçados de fontes escritas, como faz o autor. Uma pesquisa desse tipo, que se proponha verdadeiramente científica, tem que ser exaustiva, como fizeram as professoras citadas no início deste texto.

            A pesquisa desenvolvida pela Prof. Rosângela Borges Lima, por exemplo, que serviu como corpus para a sua tese de doutorado, demonstrou, à exaustão, que nos jornais e revistas de grande circulação, nos livros e artigos técnico-científicos, nos documentos oficiais, nas leis, enfim, nos suportes ou publicações onde se espera seja usado o português padrão escrito, de fato, o modelo de língua usado é aquele preconizado pela gramática normativa. É o que diz a professora na conclusão de seu trabalho: “O que observamos é, mais uma vez, nos textos escritos em linguagem formal, um alto grau de coincidência entre as escolhas feitas e as normas prescritas” (entenda-se: pela gramática tradicional). (p. 304)

            Para que se tenha uma ideia da “obediência” do português escrito padrão contemporâneo às normas da gramática tradicional, cito apenas alguns números da pesquisa (realizada com cerca de 11.000 exemplos). Os resultados refletem essa posição, de maneira inequívoca (cf. c. os anexos da tese):

 

Concordância verbal: sujeito posposto: 99,6% (de acordo com a gramática tradicional)

Colocação de pronomes átonos em início de oração e de período: 95,7% (idem)

            Concordância verbal – voz passiva sintética com 1 núcleo verbal: 91,6% (idem)

            Emprego de cujo: 100% (idem)

            Emprego de pronomes demonstrativos: 100% (idem)

            Emprego de pronomes pessoais: 96,5% (idem)

            Emprego de pronomes relativos preposicionados: 99,4% (idem)

  

            O Prof. Marcos Bagno renega, equivocadamente (como foi demonstrado), o modelo de linguagem proposto pela gramática tradicional – que ele rotula de norma-padrão clássica – por ser, segundo ele, “ideal, prescritiva e totalmente desvinculada dos usos autênticos do PB (português brasileiro).” (p. 21) Há aqui um tríplice engano: 1º) O português padrão proposto pelas gramaticas tradicionais não é “ideal”, pois está presente na maioria esmagadora dos textos escritos em que se espera que ele seja usado; 2º) O português padrão é “prescritivo”, sim, com muita honra, pois serve de modelo para aqueles que fazem uso da escrita formal. Esse é o papel das gramáticas normativas ou prescritivas, como os próprios nomes indicam e como espera a sociedade em que vivemos; 3º) O português padrão, descrito pelas gramáticas, é, de fato, desvinculado dos “usos autênticos do PB”, porque não é seu objetivo descrever a língua falada, mesmo das pessoas cultas.

            Por fim, é preciso lembrar ao Prof. Marcos Magno que não cabe a ele propor uma “nova norma linguística para o ensino.” (p. 27) Não cabe a ele nem a ninguém – nem aos linguistas, nem aos gramáticos, nem aos professores de português, nem aos jornalistas, nem aos escritores, etc. Compete aos estudiosos simplesmente observar e descrever os usos reais da língua, como ensina qualquer manual elementar de linguistica descritiva. E a língua formal escrita do português contemporâneo é aquela que é apresentada pelas gramáticas tradicionais, com poucas modificações, como demonstraram as teses das professoras Rosângela Borges Lima e Rosilene Alessandra Marques.

            O meu temor é que essa Gramática (anti)pedagógica se alastre pelo país.

Senhores jornalistas, comunicadores, professores de português e de linguística e pessoas sensatas de um modo geral! Não permitam que o germe do obscurantismo e da insensatez penetre em nossas já tão combalidas escolas de ensino básico!  

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Os cursos de Letras formam professores? (II)


Eu deveria na postagem de hoje falar sobre o ensino da expressão oral, mas vou adiar esse assunto mais um pouco, para completar a discussão do último texto. Continuo afirmando que os cursos de Letras, principalmente aqueles que fazem parte de universidades públicas, não preparam adequadamente o aluno para o exercício da profissão. É claro que há exceções, mas são poucas.

Para fundamentar a minha posição, tomo como exemplo uma prova que apliquei a uma turma da FALE/UFMG em dezembro último, na qual procuro demonstrar como deve ser tratada a questão da gramática em sala de aula. Em outras palavras, aplico em sala as lições do meu livro Gramática nunca mais II – exercícios (Ed. Comunicação de Fato). Mas o que eu gostaria de demonstrar agora não é propriamente o método aplicado – algo que já discutimos bastante neste blog – mas algumas frases escritas pelos alunos.

 

-         Ninguém sabe dizer porquê, mas o ataque dos saguís à população local constituiu uma paranóia dos grupos récem-constituídos.

-         Os acordãos da corte portuguêsa constituiu revéses para os cônsuls (cônsules).

Os acordões das cortes portuguesas constituíram reveses para os consules.

-         Cedes a tua vez aos mais velhos!

Ceda a tua vez aos mais velhos!

-         Ouves os conselhos de teus irmãos!

Ouça os conselhos de teus irmãos!

-         Captes os sinais de vossos antepassados!

Capte os sinais de vossos antepassados!

-         Depois de duas horas de treino, apareceu, no meio da quadra... dois atletas do time adversário.

-         Estas são as palavras do presidente a qual podemos contar.

-         Devem haver muitas desculpas incríveis entre os universitários.

-         Já não se crêem mais nas tradições da cidade.

Já não se criava mais nas tradições da cidade.

            -     Haverão vários motivos para nos livrarmos dos encargos.

-         À trezentos metros da Praça Sete, formou-se o maior tumulto.

-         A verdade não veio à tona; obrigaram elas a fazerem o abôrto.

-         Venho, em nome do prefeito, convidar-lhes para participarem...

-         Arrependeríamos facilmente, se houvesse-nos justificativa.

Arrependeríamos-nos facilmente, se houvesse justificativa.

Arrependeria-mo-nos facilmente, se houvesse justificativa.

Nos arrependeríamos facilmente, se houvessem justificativas.

 

            É claro que os alunos têm uma parcela de culpa, porque foram feitos inúmeros exercícios desse tipo em sala de aula. Além disso, há alunos que estudaram e obtiveram boas notas. Mas a maior parcela da culpa cabe à Instituição, que relega questões desse tipo – como vimos na postagem anterior – a um nível secundário, considerando-as indignas de estudo em um curso superior. O resultado está aí. E o ensino de português vai sendo empurrado com a barriga... 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Os cursos de Letras formam professores?


            A meu ver, não. Vou dizer por quê.

            O que deve ser ensinado na escola básica? Leitura... leitura... leitura... produção da escrita... produção da escrita... produção da escrita... Claro, isso é o que de essencial existe no ensino de português, e parece que a grande maioria dos professores concorda com isso. Há, porém, certos conteúdos que não fazem parte dos programas da disciplina Língua Portuguesa, que prefere se preocupar com o sexo dos anjos e com o orgasmo das cotovias. São conteúdos indispensáveis no curso fundamental e que fazem parte de qualquer livro didádico, mas que foram, inexplicavelmente, expulsos dos bancos escolares dos cursos superiores de Letras. São conteúdos do tipo:

-         concordância verbal

-         concordância nominal

-         regência verbal

-         regência nominal

-         emprego de pronomes

-         colocação de pronomes

-         conjugação verbal

-         emprego dos tempos e modos

-         pontuação

-         acentuação gráfica

-         emprego do infinitivo

-         uso do acento indicador da crase

-         gênero e número dos nomes

-         emprego dos conectivos, etc.

 

Veja bem, meu caro leitor: esses conteúdos são ensinados aos alunos do curso fundamental, mas quando são estudados – com profundidade – pelo futuro professor de português? Nunca, se dependermos de cursos de Letras como o da FALE/UFMG. Acho que uma coisa deve ficar bem clara: no curso de Letras devem ser ministrados conteúdos que serão dados no ensino básico. Pesquisas de ponta (principalmente aquelas que são desenvolvidas nas teses de doutorado) e os últimos hits importados da Sorbonne e de Massachusetts devem ser estudados no mestrado, no doutorado e no pós-doutorado. Deixem os cursos de Letras preparar professores para o curso fundamental! É claro que o curso de graduação deve também despertar no aluno interesse para as pesquisas avançadas, mas isso deve ocupar uma parte mínima do curso.

É bem provável que o leitor esteja querendo me perguntar: mas você não é contra o ensino da gramática na escola?

Mas veja bem o seguinte (vou dividir a resposta em duas partes);

1º) O professor de português, como especialista que é da linguagem, deve saber muito bem os conteúdos apresentados acima, não só sob o ponto de vista do uso, isto é, da prática, como também sob o ponto de vista teórico, isto é, com o domínio da gramática explícita.

2º) O aluno do curso básico deve dominar, na prática, os conteúdos apresentados acima, sem necessidade de dominar a teoria gramatical. Você acha isso impossível? Leia ou consulte o meu livro Gramática nunca mais II – Exercícios (Edit. Comunicação de Fato), em que você encontrará inúmeros exercícios sobre os conteúdos apresentados, sem o emprego da parafernália gramatical que apresentam as nossas gramáticas.

Você pode estar ainda querendo perguntar: e a expressão oral? Ela também não é importante? Não deve ser ensinada ou exercitada nas escolas? Sem dúvida, esse aspecto do ensino de português é muito importante, mas vamos deixá-lo para a próxima postagem.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O ensino de português e o Enem


            As provas do Enem, de qualquer disciplina, ao mesmo tempo em que refletem os conteúdos que são ministrados nas escolas do país, também exercem uma forte influência sobre as matérias que são ensinadas no ciclo básico. É um movimento de vai e vem, em que se observa uma espécie de infiltração recíproca. Por esse motivo, fiquei bastante preocupado com as questões da prova de Linguagens, códigos e suas tecnologias, realizada pelo Enem, em 2012.

            A minha preocupação está relacionada com o tipo de linguagem que deve ser ensinado na escola. Já dizia Sírio Possenti, em seu livro Por que (não) ensinar gramática na escola: “... o objetivo da escola é ensinar o português padrão (...) qualquer outra hipótese é um equívoco político e pedagógico”.

            De fato, o cidadão comum vai precisar na sua vida é do português padrão. Que o digam os profissionais dos vários ramos do conhecimento: jornalistas, advogados, juízes, arquitetos, professores, historiadores, geógrados, militares, juízes de futebol, etc., etc. Também os técnicos em enfermagem, informática, telecomunicação, instrumentação, construção civil, etc., etc. vão precisar da língua padrão para escrever seus relatórios, suas comunicações, seus avisos e assim por diante. Todos sabemos que erros de português podem comprometer uma carreira. Além disso, o indivíduo, para conseguir qualquer diploma, vai precisar dominar a língua culta para fazer os seus trabalhos, as suas provas e a sua monografia. Isso sem falar na dissertação de mestrado ou na tese de doutorado que são sempre escritas em português padrão. Mesmo no dia a dia de nossas vidas, estamos constantemente redigindo procurações, escrevendo cartas comerciais, desvendando os segredos dos manuais de instrução ou do manual do imposto de renda, que são escritos, como sabemos, em língua padrão.

            O domínio da língua padrão é, de longe, o objetivo mais importante do ensino de português no ciclo básico.

            Essa não parece ser a preocupação dos autores da prova de Linguagens, códigos e suas tecnologias. Das 39 questões da prova, 27 se preocupam com a linguagem não padrão: ou são textos de literaturta (prosa e poesia), ou são textos em linguagem publicitária (que não utiliza, necessariamente, a língua padrão), ou transcrições de linguagem falada ou ainda textos que colocam em xeque o emprego da língua culta. Por outro lado, todas as questões são escritas em língua padrão (não só as provas de Linguagens, como também de todas as outras disciplinas). A organização da prova exige que a redação seja do “tipo dissertativo-argumentativo", o que vale dizer, em língua padrão.

            Não tenho nada contra a língua literária, informal ou oral. Pelo contrário, em meu livro Gramática: nunca mais, procuro estimular a prática da leitura e da escrita desse tipo de linguagem. Lembremo-nos, porém, de que a língua formal é indispensável a todo e qualquer cidadão, ao passo que a língua literária ou informal é uma questão de opção: cultiva-a quem assim o quer. Ninguém é obrigado a gostar de literatura, assim como ninguém é obrigado a gostar de música clássica, de pintura ou de balé. A escola deve, sim, estimular, mas não, obrigar o aluno a gostar das diversas modalidades artísticas. Mas isso é assunto para uma outra postagem.

            A impressão que se tem, ao ler a prova de Linguagens, é de que seus autores (todos formados em Letras, como se presume) querem que os estudos realizados nos cursos de Letras sejam o centro do Universo. Ledo engano! Se as provas fossem elaboradas por professores do ensino básico, certamente, o português padrão seria, de longe, o mais exigido na prova de Linguagens, códigos e suas tecnologias.      

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Gramáticas e livros de consulta


            Volto às perguntas que fiz na postagem anterior:

 

As gramáticas devem ser simplesmente banidas da face da terra?

Afinal, o que é um livro de consulta de português?

 

Sim, as gramáticas devem ser banidas da face da terra.

Pelos motivos expostos no texto anterior, não faz sentido que as gramáticas tradicionais continuem a ser publicadas. Muitos e muitos argumentos poderiam ser acrescentados: a sua inutilidade para o estudo de português nas escolas, o caráter imutável de sua teoria (que as condena a uma fossilização inaceitável), as contradições internas de uma teoria extremamente vulnerável a críticas, o caráter enciclopédico de seus conteúdos, que pretende reunir em um só volume todos os problemas da língua, etc., etc.

As gramáticas científicas, no entanto, devem ser publicadas. Elas se destinam a especialistas da linguagem, como linguistas, professores e alunos de cursos de letras. Elas não devem ser usadas nas escolas, pois o seu objetivo é o estudo científico da linguagem humana, não o português padrão escrito. Dois bons exemplos de gramáticas científicas são as do Prof. Mário Perini e do Prof. Ataliba de Castilho. Elas são baseadas no português culto falado. Defendo a ideia de que deve haver também gramáticas científicas baseadas no português escrito padrão. Não conheço gramáticas desse tipo, apenas trabalhos acadêmicos, como a tese da Prof.ª Rosângela Borges Lima, intitulada Estudo da norma escrita brasileira presente em textos jornalísticos e técnico-científicos (Faculdade de Letras da UFMG – 2003). Há, porém, inúmeros trabalhos acadêmicos que têm como corpus o português padrão escrito usado na imprensa escrita contemporânea e nas publicações técnico-científicas. São obras desse tipo que devem abastecer os livros de consulta.

A meu ver, os livros de consulta de português são muito mais úteis ao cidadão comum do que as gramáticas tradicionais. São obras de fácil acesso, em linguagem accessível mesmo a pessoas com baixa escolaridade, são obras que se atêm àqueles itens que trazem realmente dúvidas aos consulentes, enfim, são trabalhos escritos com o intuito de facilitar a vida do estudante e das pessoas que buscam uma solução para os problemas do português. Há inúmeros livros nesse sentido: cito apenas os trabalhos do Prof. Sérgio Nogueira Duarte da Silva, do Prof. Pasquale Cipro Neto e uma obra conjunta dos professores José de Nicola e Ernani Terra.

É pena que alguns desse trabalhos apresentem as explicações sobre o uso do português com base na gramática. A meu ver, a explicação fica prejudicada, pois são pouquíssimas as pessoas que dominam a teoria gramatical. Mas, de qualquer forma, os livros de consulta são bem mais úteis do que as gramáticas tradicionais.

Para sanar essa dívida com o leitor, comunico que acabei de escrever um livro de consulta, que receberá o título de Português sem gramática. Deve ser lançado em breve.