segunda-feira, 3 de junho de 2013

Afinal, como deve ser o ensino de português? (cont.)


Afinal, como deve ser o ensino de português? (cont.)

         Passo a apresentar, como prometi na última postagem, um modelo de Lição de Português, como propus no meu livro Gramática: nunca mais (I) (Ed. Martins Fontes).

            A Lição compreende as seguintes partes:

                        I – Prática da leitura – a) Vocabulário

                                                            b) Prática linguìstica

                                                            c) Compreensão do texto

                                                            d) Expressão oral

                        II – Exercícios em língua padrão

                        III – Produção da escrita

            Para que a postagem não fique muito sobrecarregada, transcrevo apenas uma parte do texto e as partes iniciais dos exercícios.

 I – Prática da leitura – a) Vocabulário

 
VIVA  O  CHOCOLATE
 
         É sempre assim. Chega a Páscoa, você consome chocolate em porções além do razoável, e, ao final da comilança, vem o remorso. Quer uma boa notícia para diminuir seu sentimento de culpa? Cientistas da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, descobriram que o chocolate – pasmem! – faz bem à saúde. O estudo, apresentado recentemente na Associação Americana para o Avanço da Ciência, sugere que o consumo moderado de chocolate amargo pode evitar infartos. O segredo da iguaria estaria relacionado com uma substância de nome estranho: o flavonoide. Facilmente encontrada em frutas e vegetais, ela é capaz de combater os radicais livres que estão por trás do entupimento das artérias. Os flavonóides funcionam como potentes filtros sanguíneos: diminuem a formação de placas de gordura e transformam o colesterol ruim, conhecido como LDL, em substâncias que favorecem o bom funcionamento do coração.
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                                              Veja, Ed. Abril, ed. 1643, ano 33, n. 3, p. 152, 5 abr. 2000.

 1ª PARTE – PRÁTICA DA LEITURA

 A – VOCABULÁRIO

 I – Observe as frases abaixo, extraídas do texto. Procure no dicionário o sentido das palavras e expressões sublinhadas e construa outra frase com cada uma das palavras e expressões:
1 –  “...ao final da comilança, vem o remorso.”

remorso:________________________________________________________________________


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2 – “Cientistas da Universidade da Califórnia [...] descobriram que o chocolate – pasmem! – faz bem à saúde.”

pasmar:_________________________________________________________________
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3 – “O segredo da iguaria estaria relacionado...”

iguaria:_______________________________________________________________
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4 – “...ela [a substância] é capaz de combater os radicais livres que estão por trás do entupimento das artérias.”
radical livre: ___________________________________________________________________
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5 – “Os flavonoides [...] transformam o colesterol ruim...”
colesterol: ________________________________________________________________
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terça-feira, 21 de maio de 2013

Afinal, como deve ser o ensino de português?


            O caro leitor, que tanto pode ser um professor de português como uma pessoa interessada no ensino eficiente do idioma pátrio, poderá me questionar a respeito dos problemas que apresentei nas páginas deste blog: afinal, como deve ser o ensino de português? Ele se resume no aprendizado da chamada língua padrão? O contato constante com o texto – aliás, com todo tipo de texto – é importante para o aluno? Como levar o discente a escrever um texto com lógica, com sequência, com argumentação, enfim, como levar o aluno a ter um bom desempenho linguístico já na escola? Qual é a importância da interpretação de textos para o cidadão comum? E – at last but not at least – como conseguir que o aluno escreva corretamente, sem erros de ortografia, emprego de maiúsculas, concordância, regência, colocação, emprego de pronomes, conjugação verbal, uso de plural, etc.? Como conseguir tudo isso sem necessidade – como venho defendendo diuturnamente – de decorar toda aquela parafernália gramatical que nos foi legada pela velha escola e que insiste ainda em aparecer nos livros didáticos e frequentar os bancos escolares?

            No meu livro Gramática: nunca mais I (Ed. Martins Fontes) apresento dois modelos de lições de português. Cada modelo apresenta as seguintes partes e subpartes:

                        I – Prática da leitura – a) Vocabulário

                                                            b) Prática linguìstica

                                                            c) Compreensão do texto

                                                            d) Expressão oral

                        II – Exercícios em língua padrão

                        III – Produção da escrita

            Nas próximas postagens vou apresentar, com detalhes, como deve ser esta proposta para o ensino de português. Como você verá, a proposta se preocupa com dois aspectos principais:
            a) O aspecto conteudístico da disciplina, relacionado com a compreensão e a interpretação de textos,  a necessidade de levar o aluno ao raciocínio e à reflexão, a preocupação constante com a dedução, a indução, a comparação, etc., a inserção do aluno no mundo em que vivemos, a exercitação do discente na capacidade de pensar o mundo atual, etc.
            b) O domínio da língua padrão, desde os aspectos mais simples e elementares, como ortografia e pontuação, até as questões mais graves como concordância, regência, emprego do pronome relativo, passando, é lógico, pelo problema da lógica, da sequenciação, da clareza, etc.   

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Redações do Enem: a volta do "óbvio ululante"


        Suponhamos uma redação do Enem, cujo início fosse assim:

 

“A copa do mundo vai trazer muitos beneficio para o Brasil. Um dos mais importante vão ser as novas estrada que estão construindo no pais. É o caso de Belo horizonte por exemplo que esta sendo construido um monte de avenidas nova é o caso da aven. Antonio carlos e Cristiano machado duas principais avenidas para servir a nossa cidade. Outro beneficio são a construção de belos estádio como é o caso do Minerão que está uma belesa sem nenhum poblema e que dentro dele cabe mais de secenta mil pessoa acentada que assiste o jogo no maior conforto isso sem falar nos hotel que esta sendo construido à todo instante na cidade dentro e fora dela...”

 

        Não vamos corrigir esse texto, mas está claro que aí existem erros de: ortografia  (inclusive de acentuação gráfica e emprego de maiúscula), pontuação, paragrafação, concordância verbal, concordância nominal, emprego de pronome relativo, regência verbal, uso do acento indicador da crase, flexão de número, sequenciação de ideias, ilogicidade, repetição inadequada de palavras, etc. etc.

        O mais incrível de tudo isso é que só agora o Inep parece ter acordado para o problema. Até aqui “valia” escrever “trousse, enxergar, essas providências, no entanto, não deve ser expulsão” e “é fundamental que hajam debates”. Mas a sociedade brasileira, por meio principalmente da imprensa esclarecida, reagiu e obrigou o Ministro da Educação a ser explícito com relação ao assunto: sim, os erros de português serão corrigidos de acordo com a língua padrão! Voltou-se, assim, ao mais elementar dos ensinamentos da escola, ao “óbvio ululante” de Nelson Rodrigues: os alunos precisam dominar a língua padrão escrita. Afinal, é esse tipo de linguagem que vai ser usado pelos advogados, pelos jornalistas, pelos psicólogos, pelos técnicos em enfermagem e pelo cidadão de maneira geral.

        Algumas pessoas, no entanto, mesmo as mais estudadas, confundem as coisas e logo pensam: – Mas eu preciso saber gramática (ditongo, tritongo, pronome demonstrativo, advérbio, oração cooordenada, subordinada, reduzida, etc.) para escrever corretamente? De jeito nenhum. O importante é o desempenho, a prática, o uso. É preciso dominar a concordância verbal do português? Sim. Para isso não é necessário decorar as trezentas e vinte e sete regras de concordância, mas praticar bastante, como procuro fazer no meu livro Gramática nunca mais II – exercícios (Edit. Comunicação de Fato). Além disso, é preciso ficar claro que o Enem não exige dos candidatos em sua prova de Linguagens, códigos e suas tecnologias qualquer conhecimento teórico de gramática.

            Em síntese, um alerta para a prova do Enem: escrever correta e adequadamente, sim, mas sem necessidade de decorar a gramática.   

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Educação nas esquinas de Belo Horizonte


            Educar não é simplesmente entrar em uma sala de aula e recitar a lição do dia, não é apenas ajudar o filho a fazer o para casa e não é passar para alguém algum conhecimento ou informação. Mais do isso, educar é criar hábitos, é levar uma pessoa a pensar de  maneira diferente, é abrir caminhos desconhecidos.

            Você que conhece Belo Horizonte, que mora nesta cidade ou, melhor ainda, que nasceu aqui, certamente já passou pela Avenida Raja Gabaglia, já cruzou a Praça Raul Soares e certamente conhece algumas dessas ruas ou avenidas: Bernardo Guimarães, Bernardo Monteiro, Augusto de Lima, Levindo Lopes, Antônio de Albuquerque, Bias Fortes, Levindo Lopes, Professor Moraes, Santa Rita Durão, Francisco Sales, Francisco Sá, etc. Você sabe quem foram esses ilustres personagens, que deram nome a logradouros de uma região nobre de Belo Horizonte? Isso sem falar nos milhares de ruas, avenidas, praças, becos, vielas, viadutos, túneis, trincheiras, passarelas – perdidos e esquecidos nos confins desta cidade. Colho ao acaso alguns nomes, mas todos sabemos que a lista é muito grande: Aníbal Teotônio, Domingos Grosso, Faria de Brito, Guanhães, Gustavo da Silveira, Hélcio Corrêa, Itapemirim, Modestino França, Pedro Lessa, Raul Mourão Guimarães, Lagoa Doutada, Romualdo Lopes Cançado, Serra Azul, Teixeira de Magalhães, Urandi, etc., etc. Afinal, quem são essas pessoas? Que lugares são esses?

            Na cidade do Rio de Janeiro, a Prefeitura mandou colocar, abaixo do nome do logradouro público, uma breve informação: escritor mineiro (1927-1986); compositor carioca (1913-1971); Prefeito do Rio de Janeiro (1937-2005); cidade fluminense; capital do Paraná, rio da Amazônia, etc. Por que não fazemos o mesmo em Belo Horizonte? Uma providência tão simples poderia trazer uma informação preciosa para as pessoas e – o que é mais importante – despertar nos indivíduos o interesse por nossas coisas, por nossos antepassados e por nossas instituições. Quem sabe uma atitude como essa puderia nos aproximar mais da nossa História, do nosso rincão e dos nossos costumes?

            Informações desse tipo poderiam aguçar a curiosidade do belorizontino: embora tenha se apaixonado por Marília de Dirceu e casado com ela, em BH Tomás Gonzaga não cruza com a sua amada, embora esteja próximo dela. Já Alvarenga Peixoto consegue, sim, se encontrar com a sua amada, Bárbara Heliodora, no bairro de Lourdes. É bem verdade que Bárbara Heliodora pende um pouco para Tomás Gonzaga e se encosta nele. Mais interessante é o caso de Santa Rita Durão: embora localizado entre a Rua Cláudio Manoel (um inconfidente) e a Rua dos Inconfidentes, Santa Rita Durão não é inconfidente e muito menos uma santa da Igreja Católica; é um poeta mineiro, autor do poema épico Uirapuru, que viveu de 1722 a 1784.

sábado, 20 de abril de 2013

Redações do Enem: um problema sem solução? (continuação)


            Durante vinte anos participei da correção de redações do vestibular da UFMG. Pude testemunhar os desencontros e as contradições existentes entre as equipes avaliadoras e também dentro da mesma equipe. É claro que havia muita concordância na atribuição dos pontos, mas também um grande número de opiniões desencontradas. Por mais que se fizessem treinamentos dos professores – e esses treinamentos presenciais eram de fato realizados – ,  sempre havia opiniões discordantes. Observem a forma fizessem que usei no parágrafo anterior: muitos professores consideram correto o emprego de fizesse. Mas esse seria apenas um tipo de problema, relacionado com o aspecto formal do texto. Há inúmeros outros também graves, como estruturação do pensamento, sequenciação de ideias, logicidade de raciocínio, adequação de linguagem, tratamento do tema, etc. Acho simplesmente impossível que haja unanimidade de posições com relação à correção de redações, mesmo que se exija do candidato o emprego da linguagem formal.

            Além disso, é preciso considerar que o ato de escrever – mesmo em se tratando de escrita formal – tem a ver com o dom, com as habilidades pessoais. Há pessoas que adoram escrever e outros “fecham a cara” para esse tipo de atividade. Conheço um dentista, por exemplo, excelente profissional, que se nega a escrever duas linhas seguidas, passando essa tarefa para a secretária. A avaliação do Enem não pode se basear em habilidades pessoais. Alguns alunos não podem levar vantagem nas provas de redação por possuírem esse pendor natural. Além disso, pontuações como 870, 560 ou 320 são altamente suspeitas. Como se pode atribuir esses pontos? Qual é a fórmula mágica usada na correção? Se um candidato recebe 320 pontos em vez de 560, tal pontuação pode mudar ou comprometer uma vida inteira.

            Por outro lado, um aluno que não saiba escrever ou interpretar textos não pode fazer um curso superior. Como resolver esse problema?

            A meu ver, as redações deveriam ser enquadradas em quatro grupos: A – redações muito boas, sem problemas de qualquer espécie; B – redações acima da média; C – redações abaixo da média; D – redações com erros graves de comunicação e de linguagem (o aluno não tem condições de fazer um curso superior). Tomando como base o valor total da redação, as avaliações equivaleriam a 1000, 666, 333 e zero, respectivamente. É claro isso é apenas uma sugestão e adaptações poderiam ser feitas.

            Essa proposta não é infalível, mas parece ser bem mais justa, humana e exequível do que a do modelo vigente.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Redações do Enem: um problema sem solução?


            Uma das tarefas mais espinhosas, árduas e cansativas do professor de português é a famosa “correção de redação”. Deem o nome que quiserem – produção da escrita, produção textual, reescrita, etc., – o certo é que o professor tem por obrigação levar o aluno a produzir os mais variados tipos de texto durante o período escolar. Trata-se de uma tarefa extremamente importante, mas, como dizia, espinhosa. Pense-se em um professor obrigado a corrigir cem, duzentos ou mesmo trezendos textos por semana, por mês ou por bimestre... O ensino da redação é uma questão por demais complexa e não posso descer aqui a pormenores com relação ao assunto. No meu livro Gramática: nunca mais (o primeiro deles), procuro discorrer bastante sobre essa prática escolar tão útil para a vida.

            O principal problema está relacionado com o critério de correção. O que deve prevalecer: a criação do aluno ou a correção linguística? Alguém poderia falar em meio-     -termo, mas isso é possível? Um poema é um poema e uma procuração é uma procuração, com tipos de linguagem diferentes.

            Sempre que toco nesse assunto, lembro-me de que certa vez, há muitos anos, quando eu era professor da Escola Estadual Professor Pedro Aleixo, em Belo Horizonte, pedi aos meus alunos que fizessem uma redação com o título Se eu fosse Presidente da República. De um modo geral, os alunos usaram o chamado “português correto”, como era de esperar, mas houve um deles – de sobrenome Moreno, filho de uma aluna minha da Faculdade e de um jornalista – que extrapolou, isto é, escreveu (intuitivamente, é claro) à maneira de Álvaro de Campos: eram gritos lancinantes de revolta contra a situação vigente, sem pontuação, sem paragrafação e sem muita sequência lógica, mas que surtiram um efeito extraordinário, considerando-se que era uma criança de 12 ou 13 anos. Daí me veio a dúvida: que nota atribuir ao trabalho do aluno?

            Existem várias propostas com relação à avaliação de textos, mas parece não haver nenhuma que satisfaça a maioria dos professores de português. Um aluno que escreve corretamente, de acordo com os padrões cultos da linguagem, merece uma nota boa, mesmo que a sua redação seja pouco ou nada criativa? Mas o importante para a vida não é saber usar o dialeto padrão? Afinal, o aluno vai precisar na vida profissional é de escrever cartas, ofícios, procurações, avisos, relatórios, textos técnicos, etc. O dom da criação artística é um privilégio de poucos e, na verdade, são poucas as pessoas que se dedicam a essa atividade. Mas as suas redações na escola, mesmo com problemas de adequação à língua culta, devem ser bem avaliadas, no sentido de obterem boas notas?

            Enfim, como deve ser a correção de textos na escola? Deve ou pode o professor  avaliar a redação e, numa atitude mais ou menos impressionista, lançar a nota global? Ou seria conveniente dar uma nota pelo conteúdo e descontar alguns pontos pelos chamados erros de português? Ou não deve o professor se preocupar com o aspecto formal do trabalho, isto é, com a ortografia, pontuação, concordância, regência, etc., valorizando apenas a comunicação ou a mensagem proposta pelo aluno?

            Agora transponha-se esse problema para a correção dos milhões de redações do Enem. São milhares de professores-corretores, ou seja, milhares de cabeças pensantes diferentes que, mesmo com treinamento específico – on-line, diga-se de passagem –, atribuem notas aos candidatos do Enem. Acho uma atitude temerária do Inep atribuir pontos a uma correção que apresenta tantos problemas e um viés subjetivo bastante forte.

            Não estou com isso dizendo que não deve haver redação no Enem. Pelo contrário; sou francamente favorável a essa atividade pedagógica, essencial para a vida e para a carreira do indivíduo. Condeno apenas a maneira como é feita a correção. Mas como deve ser operacionalizada a avaliação das redações do Enem? Na próxima postagem apresentarei uma proposta simples e objetiva para a questão, que não traga tanta desconfiança para os candidatos. Urge que pensemos no assunto, antes que as redações do Enem se tornem uma “piada nacional”, como vaticinou a revista Veja, em uma reportagem recente.    

sábado, 23 de março de 2013

As melhores redações do Enem têm erros de ortografia, concordância verbal, acentuação e pontuação. De quem é a culpa? (Continuação)


            O Enem precisa tomar cuidado com o seu conceito entre os brasileiros. Há alguns anos, houve problemas com o sigilo das provas, mas parece que essa questão foi resolvida. Agora, a correção das redações é motivo de chacota nas redes sociais e na imprensa. Conseguirá a organização do Enem sanar esse problema?  
              Na postagem de hoje, pretendo apontar três culpados pela situação vexatória em que se encontra essa questão.
             1) Como primeiro culpado da situação – como já disse anteriormente – cito os cursos de Letras, principalmente das instituições públicas, que estão muito mais interessados nos últimos lançamentos das universidades de Sorbonne, Oxford ou Harvard do que com a formação dos professores de português. Os cursos de Letras deveriam se preocupar basicamente, na graduação,  com o futuro desempenho dos docentes em sala de aula e deixar para a pós-graduação (mestrado, doutorado e pós-doutorado) o campo das pesquisas de ponta. Conteúdos que são ensinados nas escolas de ensino básico, como concordância verbal, regência verbal, colocação de pronomes, etc. não fazem parte dos currículos dos cursos de Letras, por serem assuntos menos nobres, de pouca importância. Ora, um pós-doc da Sorbonne vai se preocupar com conjugação verbal?
             
              2) A linguística é uma ciência relativamente nova e a sua presença nos bancos escolares dos cursos superiores de Letras provocou um verdadeiro tsunami nos estudos do vernáculo. Até hoje professores de linguística e professores de português não conseguem reconhecer os seus respectivos lugares no campo dos estudos idiomáticos.
              O professor de linguística deveria se preocupar apenas – e já é muita coisa – com o estudo científico da linguagem humana. O seu objeto de estudo é a linguagem natural, essa que as pessoas usam no seu dia a dia. O linguista não deveria ter como objeto de estudo a língua padrão escrita, porque ela é convencional, obedece a outros critérios que nâo têm nada a ver com a linguagem espontânea.
             O que se vê, porém, é (alguns) linguistas mal informados dando palpite (errado) na forma de correção das redações. Já dei alguns exemplos sobre esse problema em postagens anteriores. E o mais interessante de tudo é que a maioria desses professores de linguística nunca pôs o pé em uma sala do ensino básico para dar aula de português, como se supõe que seja formada a equipe-chefe da correção de redações do Enem.
             A filosofia do ensino da língua nas escolas – e da correção de redações – deveria ser entregue a professores de português. Esses sim, têm como preocupação básica o ensino da língua padrão.
            
             3) O cidadão comum vai precisar na sua vida é do português padrão. Que o digam os profissionais dos vários ramos do conhecimento: jornalistas, advogados, juízes, arquitetos, professores, historiadores, técnicos das mais diversas áreas, etc. Mesmo no dia a dia, as pessoas estão constantemente redigindo procurações, escrevendo cartas comerciais, bilhetes, avisos e desvendando os segredos dos manuais de instrução ou do manual do imposto de renda, que são escritos, como se sabe, em língua padrão.
          O domínio da língua padrão é, de longe, o objetivo mais importante do ensino de português no ciclo básico.
          Essa não parece ser a preocupação dos autores da prova de Linguagens, códigos e suas tecnologias do último exame do Enem. Das 39 questões da prova, 27 se preocupam com a linguagem não padrão: ou são textos de literatura (prosa e poesia), ou são textos em linguagem publicitária (que não utiliza, necessariamente, a língua padrão), ou transcrições de linguagem falada ou ainda textos que colocam em xeque o emprego da língua culta. Por outro lado, todas as questões são escritas em língua padrão (não só as provas de Linguagens, como também de todas as outras disciplinas). A organização da prova exige que a redação seja do “tipo dissertativo-argumentativo", o que vale dizer, em língua padrão.
          A impressão que se tem, ao ler a prova de Linguagens, é de que seus autores (todos formados em Letras, como se presume) querem que os estudos realizados nos cursos de Letras sejam o centro do Universo. Ledo engano! Se as provas fossem elaboradas por professores do ensino básico, certamente, o português padrão seria, de longe, o mais exigido na prova de Linguagens, códigos e suas tecnologias.

            Ensinar português é algo muito mais simples do que preconizam os teóricos da linguagem. É praticar a leitura, o ditado, a cópia e a redação, tudo isso, é claro, com uma nítida preferência pela língua culta.