segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Palestra do Prof. Marcos Bagno em B. Horizonte


            Se você se preocupa com o ensino de português ou com a língua portuguesa de um modo geral, acho que temos uma boa oportunidade para discutirmos essas questões com o Prof. Marcos Bagno. Para os que não sabem, ele é professor da UnB e já publicou inúmeros livros sobre o assunto: A língua de Eulália, Preconceito linguístico, Dramática da língua portuguesa e outros. A palestra, intitulada O que é e para que serve uma gramática, será proferida no próximo dia 15, sábado, às nove horas, no auditório 102 do CAD Humanas (atrás da Faculdade de Letras), campus da Pampulha. Depois da palestra, haverá debates e as pessoas poderão, é lógico, levantar muitas questões com relação ao ensino da gramática e ao uso do português.

            Uma questão que é constantemente discutida pelo Prof. Marcos Bagno em seus livros está relacionada com o modelo de linguagem que é descrito e preconizado pelas gramáticas gramaticais. Deveria esse modelo de linguagem ser ensinado ainda hoje? Trata-se de um tipo de linguagem que é ainda usado? A língua das pessoas, hoje, não é outra, moderna, atual, vibrante, que acompanha o progresso do país? Ou é aquela ainda usada por José de Alencar, Machado de Assis e outros?

            O que você acha dessa posição?

            Certamente, essa e outras questões serão discutidas na palestra. Eu tenho uma posição clara com relação a esse assunto. Se esse tema não for discutido na palestra, prometo voltar ao tema na próxima postagem.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

É certo falar errado?


            O interessante e chamativo título desta postagem – É certo falar errado? – será o tema de um debate do qual terei o prazer de participar, juntamente com o meu colega Prof. Pedro Perini-Santos, da PUC-UFMG. O evento – intitulado Café Controverso – será realizado no Espaço TIM UFMG do Conhecimento, no próximo sábado, dia 25/08, às 11 horas, na Praça da Liberdade. Conto com a sua presença e a sua participação no debate que haverá depois de uma rápida exposição minha e do meu colega-professor.

            Creio que será uma ótima oportunidade que teremos para discutir esse importante assunto para os professores de português e para as pessoas de um modo geral. Espero que você já vá pensando no tema e prepare algum questionamento para a discussão. Não vou adiantar a essência da minha fala, mas sabemos mais ou menos o que vai ser discutido. O português padrão que é apresentado nas gramáticas tradicionais deve ser ensinado nas escolas? Ele já não estaria ultrapassado e não deveria ser atualizado? As pessoas falam ou deveriam falar segundo o modelo que é apresentado nas gramáticas? É lícito “podar” a linguagem que o aluno traz para a escola? Isso não seria podar a sua liberdade? Não seria “um preconceito” por parte do professor querer mudar a linguagem espontânea que o aluno traz de casa? Ensinar aos alunos a chamada língua culta ou exigir que os cidadãos usem a língua “correta” não seria uma atitude elitista por parte do professor de portuguêes e das autoridades de um modo geral?

            Isso é apenas um aperitivo. Espero a sua presença no Café Controverso para podermos discutir essas e muitas outras questões sobre o tema proposto.

            Até lá!

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Linguistas e professores de português (II)


            Refeito da minha viagem à Espanha, volto à carga com o intuito de continuar as minhas considerações a respeito do papel da linguística e da disciplina intitulada língua portuguesa (ou, simplesmente, português).

            Como vimos, a linguística se preocupa com o estudo científico da linguagem humana. O português, que é ensinado nas escolas, exigido nos vestibulares e concursos e empregado nas revistas, jornais, livros técnicos e científicos, etc., se preocupa com a chamada língua culta ou padrão. Os objetivos de ambas as disciplinas não devem ser confundidos, porque, na verdade, são muito diferentes. Para o cidadão comum, o que interessa é o domínio da língua culta, seja escrita ou falada. É essa que vai ser importante na vida do indivíduo, em virtude de seu prestígio e da sua obrigariedade nos mais diversos ramos  da atividade humana.

            Os professores de português deveriam se conscientizar da extrema importância do ensino da língua padrão e deixar para os linguistas as elucubrações teóricas a respeito da linguagem. Para o cidadão comum, como eu ia dizendo, uma aula do Prof. Pasquale é muito mais importante do que todos os tratados de sociolinguística.

            É por isso que eu acho que os linguistas deveriam se ater ao seu campo de atuação – o estudo científico da linguagem humana (aliás, de grande importância para a humanidade) – e deixar a questão do ensino da língua portuguesa, que tem como matéria-prima o português padrão, para os professores de português.

            Essa ingerência de alguns linguistas no ensino do vernáculo causa, às vezes, uma grande confusão. Veja-se o caso recente de um parecerista, que assim se manifestou a respeito de um livro didático de português: “Mas eu posso falar ‘os livro’? Claro que pode.” Ora, um livro didático não é um lugar para fazer linguística. Linguística se estuda nos cursos de Letras. No ensino básico, deve-se estudar, essencialmente, a língua culta.

            Alguns dirão que já no ensino fundamental é necessário mostrar essa distinção entre o uso natural da língua e o aprendizado da linguagem culta. Acho que isso pode ser feito, mas com muito cuidado. Vejam que no caso do livro didático, a revolta foi geral. Escritores, jornalistas, revistas e jornais de grande circulação, membros da Academia Brasileira de Letras revoltaram-se contra a matéria. Será que eles estão errados? É claro que não. Mas os linguistas estão errados? Também não. O que houve foi a inadequação no que diz respeito ao espaço escolhido para as considerações do parecerista. Enfim, escola (básica) não é lugar para fazer linguística.  

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Nota


            No próximo mês de julho estarei fazendo um périplo pela Espanha (Sevilha, Málaga, Granada, Cartagena, Valencia, Cuenca, Madri e Ilhas Canárias). Por causa disso, o blog será suspenso nesse período.

            Em agosto voltarei com força total.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Linguistas e professores de português


            No último dia 15 chamou a minha atenção uma Carta do leitor publicada no Estado de Minas, intitulada “Leitor critica postura de linguistas”, de autoria de  Manoel Eulálio d’Assumpção.

            O autor da carta afirma: “Deslumbrados linguistas ou sociolinguistas que não sabem a língua portuguesa (por terem a cabeça atulhada de teorias fantasiosas e por desprezar irresponsavelmente o conhecimento das normas básicas da linguagem) viraram uma praga no ensino de nosso idioma.”

            Não é a primeira vez que aparece esse tipo de problema na imprensa – o choque de posturas entre as teorias linguísticas e o ensino da língua portuguesa. Não adianta tapar o sol com a peneira: as divergências existem, vêm de muitos anos, mas é possível traçar uma linha clara de atuação entre os linguistas e os professores de português.

            A linguística é o estudo científico da linguagem humana. A sua preocupação básica é a língua natural, ou seja, aquela que é falada espontaneamente pelos grupos sociais. É por isso que a linguística se preocupa em estudar toda e qualquer manifestação da linguagem humana, como o linguajar dos barranqueiros do rio São Francisco, dos boiadeiros do interior do Mato Grosso, dos flanelinhas de Belo Horizonte, dos plantadores de cana de açúcar do Nordeste, dos frequentadores dos bailes funk da periferia do Rio de Janeiro, etc. A “linguagem” é estudada em sua essência, tal como ela se apresenta, livre de policiamentos, censuras ou julgamentos de valor, do mesmo modo como se estuda um       fenômeno antropológico ou sociológico. A gramática normativa não tem nada a ver com a descrição das línguas ou dos linguajares e a grande maioria dos estudos linguísticos se baseia na linguagem oral. É o que se lê no Dicionário de Linguística de Dubois et al.: “Todos os fatos de língua são estudados: o ponto de vista normativo é excluído”.

            A língua padrão escrita, que é apresentada nas gramáticas tradicionais, não é (ou não deveria ser) objeto de estudo da linguística. Essa é uma modalidade de linguagem tradicional, artificial, convencional, que tem suas próprias regras, diferentes, na superfície, das regras da linguagem falada. Mas é necessário dizer que a gramática tradicional, apesar de apresentar inúmeras contradições, omissões e equívocos em sua teoria, apresenta um modelo de linguagem que é seguido pela imensa maioria das publicações em que se espera que seja usada a língua padrão, como nos jornais, revistas, periódicos, livros (e artigos) técnicos e científicos, linguagem oficial, burocrática, comercial, etc.

            Essa língua padrão é o principal objeto de estudo do ensino fundamental. Como diz Possenti, “o objetivo da escola é ensinar a língua padrão. Qualquer outra hipótese é um equívoco político e pedagógico”. É com esse tipo de linguagem que devem se preocupar os professores de português, tanto do ensino básico quanto do ensino superior. Afinal, a língua padrão vai ser importante, essencial e muitas vezes indispensável na vida das pessoas.

            Mas isso é assunto para a próxima postagem.

terça-feira, 12 de junho de 2012

A gramática é uma religião


            Certa vez recebi um conselho, que sigo religiosamente até hoje, e que repasso aos meus caros alunos: em sala de aula, não se deve discutir religião, política e futebol. Quanto à religião e à política, a discussão se torna de fato muito difícil, porque as crenças e as ideologias subjugam e embotam as mentes, os espíritos e até os corações. Quanto ao futebol, acho que não vale a pena falar sobre o assunto, porque o Galo de Minas é realmente o melhor time e não vale a pena discutir essa questão.

            Brincadeiras à parte, vou abrir uma exceção e dizer que há pessoas que tratam a gramática como se fosse uma religião. Em primeiro lugar, consideram a gramática como se fosse a Bíblia. Trata-se, segundo essas pessoas, do livro sagrado da língua portuguesa. Em segundo lugar, a gramática é infalível, e desrespeitar os seus preceitos é um pecado mortal. Em terceiro lugar, a gramática é intocável e não se pode mudar as suas regras e preceitos. Há mais de dois mil anos ela permanece, na sua essência, a mesma. Em quarto lugar, os “fieis”, ou melhor, a grande maioria dos falantes, consideram que a gramática é a própria língua portuguesa. Quantas e quantas pessoas dizem que “não sabem português”, “que português é muito difícil”, quando, na verdade, querem dizer que a gramática do português é muito difícil. As pessoas não se dão conta de que falam maravilhosamente bem o português, porque falam o que querem, conversam com todas as pessoas, leem jornais, revistas e livros, entendem o que se fala nos rádios, televisões, cinemas, teatros, etc. Mesmo assim, as pessoas de um modo geral insistem em dizer que não sabem português.

            Voltando à comparação com a religião, é interessante observar o seguinte: muitas e muitas pessoas se afastaram da prática da religião e de seus dogmas (refiro-me especialmente à religião católica, que é o meu caso). Não se confessam mais, não vão à missa aos domingos, não fazem jejum, não acreditam na infalibilidade do Papa, não acreditam que Cristo tenha sido homem e Deus ao mesmo tempo, etc. No entanto, se passar um recenseador em suas casas, eles dirão que são católicos.

            O caso da gramática é mais ou menos o mesmo. A grande maioria das pessoas diz que as regras gramaticais, com seus exageros, suas exceções e com a sua nomenclatura esdrúxula e rebarbativa, são desnecessárias no aprendizado do português. Além disso, é quase unânime a posição dos falantes quando afirmam que a gramática não tem qualquer proveito para auxiliar na melhor compreensão dos textos e, muito menos, na produção da escrita. Muitos alunos reconhecem que o estudo da teoria gramatical no ensino básico é um empecilho para as pessoas gostarem de português, dada a sua natureza complicada, ilógica e inatingível. Na verdade, o estudo da gramática afasta os estudantes do domínio da língua padrão.

            No entanto, se for feita uma pesquisa, tenho a impressão de que a grande maioria dos intrevistados dirá que é necessário estudar gramática. Não é uma simples questão de metodologia. A religião e a gramática são partes integrantes da cultura de um povo. E substituir os valores de um grupo social é uma das coisas mais difíceis do mundo. Mas não é impossível! 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Dominar a norma culta é diferente de saber gramática


Um dos maiores empecilhos para aqueles que defendem a ideia de que é possível ensinar português sem estudar gramática está relacionado com a confusão generalizada que muita gente faz entre dominar a língua padrão e saber gramática. Pessoas cultas fazem essa confusão e até mesmo profissionais do ramo (professores de linguística e de português, jornalistas, escritores, etc.) caem na mesma esparrela. Em meus trabalhos, defendo a ideia de que se trata de dois saberes, ou de duas práticas distintas: uma pessoa pode escrever muito bem sem saber gramática e outra pode saber gramática sem saber escrever adequadamente.

Um exemplo dessa confusão entre saber português e saber gramática está retratado na entrevista que o Prof. Evanildo Bechara concedeu à revista Veja em 1º/06/2012. É preciso esclarecer, no entanto, que considero o referido professor como um intelectual de altíssimo nível, que tem prestado relevantes serviços ao país, na área de filologia e língua portuguesa, mas, no caso específico da entrevista, pode-se dizer que houve uma falha lamentável.

Em primeiro lugar, o professor defende o ensino e o uso da norma culta, posição com a qual concordo plenamente. “O objetivo da escola é ensinar a língua padrão’, já dizia Sírio Possenti. Em vários trechos da entrevista, a postura do professor Bechara é bastante clara: “... é preciso que se reconheça que a língua culta reúne infinitamente mais qualidades e valores (do que a língua não culta). Ela é a única que consegue produzir e traduzir os  pensamentos que circulam no mundo da filosofia, da literatura das artes e das ciências.” Mais adiante, continua, agora batendo em outra tecla: “Ela é um componente determinante da ascensão social... Privar cidadãos disso é o mesmo que lhes negar a chance de progredir na vida.” 

Até aqui tudo bem. O grande problema é a confusão que se estabeleceu com relação à gramática. São raras as pessoas que sabem gramática hoje em dia. Mesmo os professores de português não sabem gramática direito. Por outro lado, milhares ou mesmo milhões de pessoas escrevem adequadamente, mas fogem da gramática como o diabo foge da cruz. Já tive vários orientandos no Curso de Pós-Graduação da Fale/UFMG, que escreveram teses e dissertações para provar que escrever bem e saber gramática são dois saberes ou atividades distintas.

Na entrevista em questão, ficou a ideia de que para dominar a norma culta é preciso saber gramática. Se isso for verdade, são raríssimas as pessoas que dominam a norma culta, porque quase ninguém sabe gramática.
Infelizmente, até hoje, muitas pessoas condicionam o aprendizado da língua padrão ao estudo da gramática. É o que defende o Prof. Bechara ao afirmar: “ Ao questionar a necessidade do estudo da gramática nas escolas do país, linguistas como Marcos Bagno e tantos outros estão nivelando por baixo o ensino do português”. Até a revista Veja se deixou levar pelas palavras do ilustre filólogo, ao colocar como título da entrevista “Em defesa da gramática”. O ideal seria que a entrevista tivesse como título “Em defesa da norma culta”.